É uma irracionalidade esse debate se é mais importante a vida ou a economia, diz governador

O governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), 40, diz que não busca o aval do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para tomar atitudes contra o coronavírus dentro das dividas de seu estado.

Polidamente, ele afirma que respeita a visão do presidente de minimizar a crise, mas deixa claro que não concorda com ideias como a flexibilização do isolamento.

“Nossa estratégia está em curso e para tal nós não pedimos autorização para ninguém”, afirma, em entrevista. Ele também bate pesado nos que acusam a China, para quem pediu ajuda no combate ao Covid-19, de ser a culpada pela pandemia. “Isso é ignorância”, diz.

Pergunta – Como o sr. vê a troca de farpas entre o presidente e governadores?

HB – Eu defendo que nós tenhamos um único adversário, que é o coronavírus. Temos de nos unir para enfrentar. E colaborar cada um com a sua missão.

O sr. defende a flexibilização do isolamento, como pede o presidente?

HB – Aqui no Pará, nós decretamos suspensão de aulas, fechamento de shoppings, bares, restaurantes e casas de espetáculo. Lojas de rua estão mantidas. Suspendemos o transporte interestadual e o intermunicipal. Vamos seguir as orientações da Organização Mundial da Saúde.

Eu respeito o contraditório, respeito a opinião do presidente da República. Agora, eu me balizo nas decisões técnicas. Busco para a tomada de decisões informações da OMS, do Ministério da Saúde, da área de vigilância. Estudo os casos de países que já enfrentaram a crise com maior gravidade, já vivenciaram todo o ciclo do coronavírus nas suas áreas.

O que o sr. achou do pronunciamento do presidente pedindo o fim do isolamento?

HB – Acho que não devemos nesse momento valorizar o conflito. O presidente tem a opinião dele, então há de se respeitar. Entre respeitar e concordar, são coisas distintas.

Mas não é estranho esse isolamento do presidente nesse momento? A própria reunião dos governadores sem ele mostra isso, não?

HB – Eu acho que mostra que os governos estaduais estão buscando cumprir com suas missões de agir em proteção dos seus estados. Está muito claro aqui no estado do Pará que nós agiremos desejosos de ter apoio do governo federal. Valorizamos a parceria com o Ministério da Saúde e temos aqui um protocolo de emergência e uma estratégia desde janeiro. Está em curso, sendo executada, e para tal nós não pedimos autorização para ninguém.

Por que o sr. barrou o transporte interestadual?

HB – Nós não temos aqui fiscalização da Anvisa para as dimensões territoriais do estado do Pará. A Anvisa possui 11 colaboradores no estado, sendo 8 deles no aeroporto de Belém e 3 no porto de Vila do Conde.

Um estado que faz fronteira inclusive internacional não possui uma autoridade sanitária com musculatura funcional. Óbvio que é um flanco de facilitação da circulação do vírus. São medidas restritivas de prevenção para evitar a disseminação.

Isso não vai contra o discurso de cooperação entre estados?

HB – A fronteira não está sendo fechada. A circulação de mantimentos, carga, continua aberta. Agora, cada estado tem autoridade sobre o seu território. Cada governador está buscando cumprir com as suas estratégias para fazer com que o seu território esteja protegido. Farei isso no Pará. O estado vizinho do Amazonas está com mais de 40 casos e teve inclusive 1 óbito.

O sr. já tem uma estimativa do impacto econômico da crise no estado do Pará?

HB – A nossa expectativa é de cerca de R$ 2,5 bilhões de perda de arrecadação em 2020. Isso significa 10% em termos reais. Depende muito de como a Vale e as mineradoras vão se comportar. Até o momento elas sinalizam não haver redução na operação. Se isso se mantiver, o impacto no PIB se reduz.

Mas nesse momento, nós não estamos preocupados com o PIB. O PIB acaba retratando uma realidade pontual, não a realidade da população. Adotamos a estratégia de fazer um programa importante de microcrédito para pequenos empreendedores, empreendedores individuais e trabalhadores da informalidade.

Muitos empresários estão dizendo que mais importante é manter a economia girando, até mais do que a questão da saúde. Como o sr. vê esse debate?

HB – Isso é uma irracionalidade. A vida, se for perdida, não dá segunda chance. A economia você pode recomeçar, reerguer-se. Se alguém colocar em pauta se é mais importante vida ou economia, este alguém seguramente deverá ser avaliado.
Por que o sr. fez um pedido de ajuda à China?

HB – Pedi equipamentos e EPI [Equipamento de Proteção Individual] no último sábado. O embaixador solicitou que eu detalhasse e me disse que até segunda-feira iria fazer o check-list com o governo central e as províncias, seja naquilo que podem colaborar, seja em oportunidades de compra.
Como o sr. vê as acusações de que a China é culpada pelo vírus?

HB – É ignorância. Quem culpa a China pelo vírus não tem que sofrer avaliação, tem que sofrer interdição.

Muita gente no entorno do presidente tem essa opinião, inclusive o filho dele [Eduardo Bolsonaro].

HB – Que meu adjetivo sirva para os que pensam assim. Nunca ouvi falar de ter status para doido. Todo doido é doido, não tem meio doido. Quem ficar especulando esse tipo de coisa tem de ser interditado.

 

Fonte: opovocomanoticia.com.br

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