A eleição de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil representaria um perigo real para o país, avalia D. André de Witte. O bispo de Ruy Barbosa, no Estado da Bahia, lamenta o excesso de prudência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB “que conheceu períodos mais proféticos que hoje”.

D. André de Witte, bispo belga que vive no Brasil desde 1976, falou de seus temores no no dia 18 de outubro de 2018, em Genebra. Ele testemunhou na ONU a realidade brasileira a convite da “Franciscans International”, uma ONG que tem o estatuto de consultora junto à ONU. Ela faz um trabalho de ‘advocacy’ em favor dos direitos humanos, pela promoção da justiça, da paz e da proteção da criação. D. de Witte foi ameaçado de morte, nas redes sociais, por partidários de Bolsonaro.

“A parte podre da Igreja católica”

Mas ele não é o único alvo: até a muito prudente CNBB foi chamada, juntamente com o Conselho Indigenista Missionário – CIMI, pelo favorito da eleição presidencial, de “ser a parte podre da Igreja católica”. Há vários dias, circula nas redes sociais um vídeo onde o ‘caudilho’ do Partido Social Liberal insulta a Conferência Episcopal Brasileira com linguagem vulgar, como é seu costume.

Nostálgico da ditadura que ensanguentou o Brasil de 1964 a 1985, com seu cortejo de militantes e de simples civis torturados, assassinados ou exilados, Bolsonaro demonstrou, no curso da sua longa carreira política, sua hostilidade aberta contra a Igreja católica.

O antigo militar visa sobretudo os setores mais comprometidos com as causas sociais e os direitos dos mais pobres. Ele não hesitou, certa vez, de na tribuna do Congresso Nacional, dizer que o cardeal Paulo Evaristo Arns, um dos grandes opositores da ditadura militar, era um homem “sem honestidade” e um “aproveitador”.

O papa Francisco também foi tratado de “comunista”

Há muito tempo que “o populista Bolsonaro nos insulta, lamenta D. André de Witte, pois ele não suporta nosso compromisso social, nossa vontade de participar na construção de uma sociedade justa e solidária… Nós somos qualificados de ‘comunistas’ quando nós perguntamos porque há tanta pobreza, quando nós buscamos as causas. O papa Francisco sofreu os mesmos ataques… É o caminho do Cristo!”

Frente aos ataques, D. André de Witte lamenta, com palavras cuidadosas, o excesso de prudência da CNBB: “numerosos são os bispos que têm medo de falar francamente. Falta uma mensagem imediata e clara. O povo se ressente desta falta”.

Para o bispo de Ruy Barbosa, não se trata de atacar uma pessoa, mas de analisar seu projeto político, pois o que está em jogo é, de qualquer maneira, a alternativa entre um “projeto de vida” e um “projeto de morte”. “Bolsonaro tem um discurso racista, prega a discriminação contra as populações negras, contra as mulheres, quer suprimir a demarcação das terras indígenas na Amazônia”, afirma o presidente da CPT, pois os povos autóctones são considerados como um obstáculo para o desenvolvimento.

“Bandido bom é bandido morto…”

“Sua atitude é perigosa: ele prega a violência armada, afirmando que bandido bom é bandido morto… Ele quer mais repressão e até recompensar os policiais que saem atirando nos delinquentes. Ele quer mais prisões e menos recursos para a educação. Ele quer reforçar a segurança sem analisar os problemas sociais que são, em grande parte, a raiz da ‘insegurança”, detalha D. André de Witte. O candidato à presidência se deixa fotografar, ao lado de crianças, com armas de fogo: “mostrando para as crianças a maneira de manejar um fuzil… Ele incita à violência contra o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST, apoiando os grandes proprietários de terra. É um programa perigoso para a sociedade”.

Apoiado por evangélicos conservadores, entre os quais o ‘bispo’ Edir Macedo, líder da multinacional “Igreja Universal do Reino de Deus” – IURD e proprietário do Grupo Record e da Rede Record, a segunda maior do Brasil, Bolsonaro se beneficia do poderoso instrumento de propaganda. Ele manipula setores da Igreja católica se dizendo a favor da vida, contra o aborto e partidário da família tradicional contra o casamento de gays.

“Mas não é mais que um discurso”, diz D. André de Witte, lamentando que a campanha eleitoral não contribuiu para a reflexão. Trata-se, antes de tudo, de uma atitude antissistema: “não se quer mais o Partido dos Trabalhadores, o PT, que é acusado de todos os males, principalmente de fazer propaganda nas escolas em favor da homossexualidade. Os partidários de Bolsonaro difundem nas redes sociais uma multidão de ‘fake news’, de informações falsas, como, por exemplo, a distribuição de um kit gay nas escolas. Este kit nunca existiu!”

O bispo de Ruy Barbosa lamenta que os grandes meios de comunicação, como a Rede Globo, não fazem corretamente o seu trabalho. “Não temos meios de comunicação que informem corretamente, que analisem, que coloquem os temas em perspectiva, formem as consciências, alertando para o risco dos perigos que estão por vir. Talvez não seja algo voluntário, mas uma omissão que, no entanto, pode se tornar uma cumplicidade. Ainda espero, antes que seja tarde, que toda a sociedade acorde face ao grande perigo que se anuncia!”.

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